18 de agosto de 2017
Expediente
Fale Conosco
Pesquisar
 
País desabou do 45º para o 65º posto, entre 160 países, na infraestrutura de transporte
 
Paulo Fleury, diretor-geral do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), define o resultado como "desastroso" para o País. "A hora da verdade chegou: o Brasil investiu bilhões em obras de infraestrutura de transporte que, por problemas de gestão, não foram terminadas, e está aí o resultado."

Na avaliação de Fleury, o fato de o estudo não medir os avanços ou retrocessos físicos, mas a percepção dos empresários, é sintomático. Pouca coisa mudou na infraestrutura do País nos últimos anos, mas a posição do Brasil no ranking foi se alterando. 

Em 2007, quando a pesquisa foi lançada, o Brasil ocupava o 61.º lugar. Em 2010, ficou na sua melhor colocação: 41.º posto. Em 2012, caiu para a 45.ª posição. De lá para cá, despencou para a sua pior colocação.

Fleury atribui as oscilações às mudanças nos cronogramas das obras. "Quando a primeira pesquisa foi realizada, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) havia acabado de ser lançado e a expectativa de melhora empurrou o indicador para cima por um tempo", diz Fleury. 

"Como as obras não saem do papel, mas a demanda por transporte aumenta, estrangulando o sistema, a frustração só fez aumentar e nem as concessões no ano passado conseguiram melhorar os ânimos."

Levantamento do Ilos mostra que o atraso médio nas obras do PAC é de 48 meses. Há também enorme descompasso entre o custo orçado e o custo que se viu na prática. O aumento médio foi de 85%.

Muitas deficiências. O Banco Mundial também divulgou a classificação dos países em seis itens específicos na área de logística e transporte, usados em conjunto para determinar a classificação geral. 

O segmento que o Brasil está mais bem colocado é na "qualidade e competência logística" (50.ª posição) e o pior no "serviço de aduanas e alfândegas" (94.ª). 

Na categoria "rastreamento e monitoração" está na 62.ª e, nas "entregas internacionais", na 81.ª.

Outros países da América Latina estão em posições bem melhores que a do Brasil, como Chile (42.º lugar, o melhor classificado da região), México (50.º) e Argentina (60.º).

Desigualdades. As três primeiras posições do ranking são ocupadas por países desenvolvidos - Alemanha, Holanda e Bélgica. Entre os últimos estão Somália, Afeganistão e República Democrática do Congo. 

O Banco Mundial reconhece que reformas no setor são complexas e a melhora do transporte exige pesados investimentos, o que dificulta o avanço em países em desenvolvimento. Por essa razão, os países de alta renda são maioria entre os que ocupam as dez primeiras posições do ranking, destacou a instituição no material enviado à imprensa.

A principal conclusão do estudo é que a diferença na logística entre países com melhor sistema de transporte e aqueles com pior rede ainda é muito grande, apesar da ligeira melhora desde o início da pesquisa em 2007.

O Banco Mundial avalia vários fatores para montar o ranking geral - qualidade da infraestrutura de transporte, de serviços e a eficiência do processo de liberação nas alfândegas, rastreamento de cargas, cumprimento dos prazos das entregas e facilidade de encontrar fretes com preços competitivos. 

A instituição ouviu cerca de mil profissionais de logística pelo mundo. Com base nas entrevistas e na metodologia, o Banco Mundial desenvolveu o Índice de Desempenho Logístico (LPI, na sigla em inglês), que é usado para organizar o ranking.

Brics têm a pior extensão da malha de transporte

No Bric - o bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia e China -, a infraestrutura de transporte brasileira é de longe a mais deficiente, segundo levantamento da consultoria Ilos. 

Apesar de ser do tamanho de um continente, o Brasil tem apenas 212 mil quilômetros de estradas pavimentadas. 

A Índia, que tem menos da metade da área brasileira, já asfaltou 1,57 milhão de quilômetros, praticamente a mesma quantidade que a China, onde há 1,58 milhão de quilômetros de asfalto. 

A título de comparação, os Estados Unidos têm 4,2 milhões de quilômetros de estradas pavimentadas.

Algo parecido ocorre com as ferrovias. A Rússia tem 87 mil quilômetros de trilhos, a China, 77 mil, e a Índia, 63 mil. O Brasil tem apenas 29 mil. 

Na prática, porém, apenas um terço é utilizado, o que reduz a malha em operação no País para parcos 10 mil quilômetros.

O único segmento em que o Brasil encontra um integrante do bloco com deficiências parecidas é o hidroviário - mas ainda assim com ligeira desvantagem. 

O Brasil tem 14 mil quilômetros de hidrovias e a Índia, 15 mil. 

China e Rússia têm, respectivamente, 110 mil e 102 mil quilômetros de rios organizados para o transporte de cargas. 

O número é superior até ao dos Estados Unidos, onde há 41 mil km de hidrovias. 

O ESTADO DE S. PAULO
Alexa Salomão e Altamiro Silva